A colonização italiana em São Pedro de Azambuja (Urussanga / Pedras Grandes)
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- 13 de out. de 2025
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Tradição, fé e trabalho às margens do Rio Tubarão. Assim começa a história da colonização italiana na localidade de São Pedro de Azambuja, situada na divisa entre os atuais municípios de Pedras Grandes e Urussanga, recebeu, a partir de 1877, um dos mais expressivos grupos de imigrantes italianos do sul de Santa Catarina.
Foram 161 colonos, distribuídos em dezenas de famílias oriundas principalmente da Província de Treviso, mas também de Belluno, Padova, Vicenza, Veneza, Bergamo e Palermo, representando a diversidade cultural e regional do Norte da Itália.
Esses imigrantes chegaram com esperança, coragem e poucas posses — fugindo da pobreza, da instabilidade política e das dificuldades agrícolas que assolavam a península após a unificação italiana. O destino, cuidadosamente planejado pelo governo imperial brasileiro e pelos agentes de colonização, era um território fértil, porém coberto por mata virgem, onde começava a se delinear o projeto de colonização italiana no sul catarinense.
1. As Famílias Pioneiras
Entre os sobrenomes fundadores de São Pedro de Azambuja estavam:
Ancona, Baesso, Barp, Benica, Bertan, Bertotti, Bettiol, Biz, Bortolatto, Bortolini, Bottega, Bressan, Brunatto, Brunel, Carrara, Casteller, Cechinel, Cesca, Cevolin, Collodel, Costa, Dagostin, Dal Bo, Dal Toe, De Bona, De Conto, De Noni, De Pizzol, De Villa, Della Isidoro, Demo, Denoni, Desan, Durante, Fabro, Fachin, Frasson, Gallon, Ghedin, Ghizzo, Grillo, Gugliemi, Gusatto, Guzatti, Iseppon, Lucchetto, Maffioletti, Magagnin, Maragno, Marcon, Mazon, Meller, Meneghel, Merotto, Modolon, Montini, Nicoletti, Niero, Pacagnan, Padoin, Patel, Pian, Piccolo, Pillon, Pilotto, Pissoloto, Possamai, Recco, Remor, Ricieri, Rosset, Salvador, Salvan, Sasso, Serafin, Simon, Soratto, Spader, Spagnolli, Steffani, Talamini, Titon, Tonet, Tonetti, Tonon, Vettoretti, Visentin, Zaccaron, Zanivan e Zatta.
Essas famílias formaram o núcleo colonial de São Pedro de Azambuja, uma das células-mãe da colonização italiana em toda a região de Urussanga, Pedras Grandes e Treviso.
2. Origem e Procedência
A maioria desses imigrantes provinha da Região do Vêneto, província de Treviso, especialmente de localidades como Treviso, Valdobbiadene, Pieve di Soligo, San Pietro di Barbozza, Cordignano, Tovena, Cison di Valmarino, Farra di Soligo e Selva del Montello — áreas marcadas pela viticultura e pela agricultura familiar.
Outros vieram de Belluno (9 famílias), Padova (5), Veneza (12), Vicenza (2), Bergamo (1), Verona (1) e até Palermo (1), representando uma rica mistura regional dentro do mesmo espírito migratório.
Essas origens explicam a diversidade de sotaques, tradições religiosas e hábitos agrícolas que, ao se misturarem nas encostas catarinenses, deram origem a uma cultura ítalo-brasileira única.
3. A Chegada e o Primeiro Assentamento
Os colonos desembarcaram inicialmente no porto de Laguna e seguiram de barco pelo Rio Tubarão, subindo até o ponto em que podiam alcançar a localidade de Azambuja, em Pedras Grandes. Dali, abriram picadas para o interior, demarcando os lotes agrícolas que formariam São Pedro de Azambuja.
A região apresentava desafios: mata densa, rios caudalosos, doenças tropicais e isolamento geográfico. Mesmo assim, os imigrantes, movidos pela fé e pelo espírito comunitário, construíram as primeiras casas de madeira, ergueram uma pequena capela dedicada a São Pedro, que deu nome ao lugar, e organizaram mutirões para a abertura de estradas e lavouras.
4. O Trabalho e a Vida Comunitária
As famílias dedicaram-se à agricultura de subsistência, com destaque para o milho, o feijão, o trigo e a criação de suínos, mas logo introduziram as videiras e a produção de vinho caseiro, símbolo da tradição vêneta.
As comunidades se estruturavam em torno da igreja, da escola e da cantina, e os sobrenomes italianos passaram a batizar os vales e as encostas. O trabalho coletivo — as mutirões (ou mutui soccorso) — era essencial para desbravar e sobreviver.
O sentimento de solidariedade e a religiosidade católica marcaram profundamente a formação cultural da localidade, que mais tarde daria origem a linhagens familiares presentes até hoje em Urussanga, Pedras Grandes, Treviso e Nova Veneza.
5. A Contribuição Cultural e o Legado
De São Pedro de Azambuja irradiou-se parte da colonização que formaria o eixo ítalo-catarinense. A tradição oral, os sobrenomes preservados, as festas religiosas, a gastronomia, os dialetos e o trabalho nas pequenas propriedades perpetuaram o espírito dos antepassados.
Hoje, São Pedro de Azambuja é reconhecida como um símbolo do início da colonização italiana na região — um marco da determinação, da fé e do amor à terra de centenas de imigrantes que transformaram o vale do Rio Tubarão em um espaço de prosperidade e cultura.
A história das famílias italianas de São Pedro de Azambuja é uma narrativa de coragem e esperança. Esses pioneiros, ao deixarem suas aldeias na Itália, plantaram nas encostas do sul catarinense as raízes de uma cultura que floresce até hoje — feita de trabalho, fé, união e amor à terra.
O que começou com 161 imigrantes transformou-se em milhares de descendentes orgulhosos de sua origem, que mantêm viva a memória daqueles que, com enxadas e orações, construíram uma nova Itália no coração de Santa Catarina.
(por Júlio Cancellier)




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