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A colonização italiana no Vale do Rio Maior (Urussanga)

A hist

Igreja de pedras construída por imigrantes italianos
Igreja de pedras construída por imigrantes italianos

ória da localidade de Rio Maior, no município de Urussanga (Santa Catarina), está intimamente ligada à chegada das famílias italianas que, a partir de 1878, cruzaram o Atlântico em busca de uma nova vida. Vindos principalmente das montanhas do Vêneto e do Friuli Venezia Giulia, esses imigrantes deixaram para trás vilas como Erto e Casso, Longarone, Castelavazzo, Claut, Forno di Zoldo, Miane, Montebelluna, Volpago del Montello e outras pequenas comunidades das províncias de Belluno, Pordenone, Treviso, Udine e Verona — todas ao norte da Itália.


As origens e a partida


O final do século XIX foi um período de intensas dificuldades no norte italiano. A região do Vêneto e do Friuli sofria com a pobreza rural, a fragmentação das terras, os efeitos da unificação italiana e o peso dos impostos. Muitos camponeses, habituados ao trabalho árduo nas encostas dos Alpes e Dolomitas, foram atraídos pelas promessas do governo brasileiro de terras férteis e oportunidades.


As famílias embarcaram em portos como Gênova e Le Havre, seguindo em longas viagens até o porto de Desterro (atual Florianópolis) e, em seguida, até Laguna. De lá, subiram a pé e em carretas rumo às terras do núcleo Urussanga da Colônia Azambuja, aberto oficialmente em 1878. O núcleo do Rio Maior foi um dos primeiros e mais expressivos desses assentamentos.

Vilarejo de Casso, de onde veio parte dos imigrantes do Rio Maior
Vilarejo de Casso, de onde veio parte dos imigrantes do Rio Maior

A fundação de Rio Maior


O núcleo colonial do Rio Maior foi formado por 186 imigrantes, organizados em 48 famílias. Essas famílias foram instaladas em lotes demarcados ao longo do rio que deu nome à localidade — um curso d’água de correnteza forte e margens férteis, cercado por mata densa e relevo acidentado.


Entre os primeiros colonos destacaram-se famílias como BARZAN, BORTOLUZZI, BRATTI, COLOTTO, DE BETTIO, DE BONA, DE LORENZI, DE ZAN, DINON, DONADEL, FELTRIN, FONTANELLA, GIORDANI, MANARIN, MAZZUCCO, PILLON, PIUCCO, TEZZA e ZAPELLINI, entre outras. Muitas delas vieram de vilarejos próximos, formando verdadeiros clãs familiares, o que facilitou a adaptação e a preservação das tradições italianas.


Laços de sangue e de trabalho


As famílias De Lorenzi (Cancellier, Bocardo, Canever, Frol), Feltrin, Manarin e Mazzuzzo se entrelaçaram por casamentos e parcerias de trabalho, criando uma rede de parentesco que sustentou a comunidade. O sobrenome De Lorenzi, em suas diversas ramificações (como De Lorenzi Cancellier, De Lorenzi Bocardo, De Lorenzi Canever, De Lorenzi Frol), tornou-se um dos mais emblemáticos de Rio Maior, presente em praticamente todos os registros das primeiras décadas da colônia.


Esses imigrantes trouxeram consigo o saber agrícola europeu, o hábito das roças em encostas, a criação de animais e o cultivo da videira. Em poucos anos, transformaram a mata virgem em pequenas propriedades produtivas, baseadas na agricultura familiar e na solidariedade comunitária. A produção de milho, feijão, trigo e uva sustentava a alimentação e permitia trocas com outras comunidades.



Interior da capela do Rio Maior, devotada a São Gervasio e Protásio
Interior da capela do Rio Maior, devotada a São Gervasio e Protásio

Logo após a instalação, os colonos ergueram um pequeno oratório de madeira, símbolo da fé católica que os acompanhou desde a Itália. A devoção a santos como São Gervasio e Protásio, era forte e se manifestava nas festas religiosas e nas promessas de proteção contra doenças e intempéries, inclusive na construção de uma igreja de Pedra no Rio Maior, devotada aos dois santos.


As casas de madeira serrada à mão, com telhados de tabuinhas e paredes de tábuas encaixadas, tornaram-se o cenário do cotidiano. As famílias se reuniam aos domingos, falavam o dialeto vêneto e friulano, e mantinham tradições culinárias como a polenta e radici, o salame caseiro e o vinho do tonel.


Dificuldades e superação


Os primeiros anos foram marcados por sacrifício e isolamento. O caminho até Urussanga era precário, e as comunicações com Laguna — o principal ponto de comércio — exigiam dias de viagem. Doenças tropicais, acidentes e a falta de assistência médica causaram muitas perdas. Ainda assim, a coesão familiar e o espírito de trabalho permitiram a consolidação do núcleo.


A partir das décadas seguintes, as famílias começaram a se expandir para outras localidades, dando origem a novas comunidades — como Rio Carvão, Palmeira do Meio, Palmeira Alta, Rio América e Rio Caeté. Mesmo distantes, mantinham os vínculos originais e os laços de sangue do Rio Maior.


Legado e descendência


Hoje, as descendências dos 186 imigrantes de Rio Maior estão espalhadas por toda a região de Urussanga, Cocal do Sul,Criciúma, Tubarão, Orleans, Pedras Grandes, Treviso, Siderópolis, Nova Veneza e Florianópolis. Sobrenomes como De Lorenzi, Mazzuzzo, Feltrin, Fontanella, Manarin, Tezza, Pillon, Piuzzo e Barzan continuam presentes na vida econômica, social e cultural do Sul Catarinense.


Essas famílias deixaram um legado de trabalho, fé e identidade italiana que se manifesta até hoje nas festas típicas, nas cantinas, na música e na língua herdada de seus antepassados — o dialeto vêneto, ainda ouvido em muitas casas de Urussanga.


Conclusão


A epopeia dos imigrantes italianos do Rio Maior é parte essencial da história da colonização italiana em Santa Catarina. Vindos das montanhas frias do norte da Itália, enfrentaram a mata, o isolamento e as adversidades com coragem e esperança. Construíram uma nova pátria em terras brasileiras, fincando raízes profundas que continuam a florescer quase de 145 anos depois.


(por Júlio Cancellier)

 
 
 

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