História da Colonização Italiana na Comunidade de Rio Cintra – Pedras Grandes (SC)
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- 13 de out. de 2025
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A comunidade de Rio Cintra, localizada no atual município de Pedras Grandes, foi uma das primeiras localidades colonizadas por imigrantes italianos na então Colônia de Azambuja, no sul de Santa Catarina. A sua história se entrelaça diretamente à da primeira leva de imigrantes que chegou no dia 28 de abril de 1877, vindos no navio Rivadavia, trazendo famílias do norte da Itália em busca de novas oportunidades nas terras do Império do Brasil.
As origens dos colonos
Os imigrantes que se estabeleceram primeiramente em Rio Cintra provinham majoritariamente das regiões do Vêneto (85), Lombardia (27) e Trentino-Alto Adige (2) — áreas que, à época, viviam profundas transformações econômicas, com escassez de terras e consequências das guerras pela unificação italiana.
Eles pertenciam às províncias de Treviso (60), Mantova (21), Verona (20), Cremona (6), Vicenza (2), Belluno (2), Trento (2) e Veneza (1), e vieram de pequenos comunes que hoje fazem parte da paisagem histórica do Vêneto e da Lombardia: Farra di Soligo, Fonte, Gazzuolo, Ronco all’Adige, Miane, Povegliano, Arcole, Belfiore, Motta Baluffi, Castelfranco Veneto, Asolo, entre outros.
Esses nomes ressoam ainda hoje na memória das famílias e nas tradições que sobreviveram ao longo das gerações.
A chegada e o assentamento
A primeira leva de imigrantes italianos destinada à Colônia de Azambuja chegou em 1877, vinda do Porto de Le Havre, a bordo do navio Rivadavia. Depois de dias de viagem pelo mar, em grandes canoas pelo rio Tubarão e carros de boi, os colonos foram conduzidos até a sede da Colônia e posteriormente encaminhados até os lotes com terras férteis e cobertas por mata nativa onde hoje se encontra Rio Cintra.
Outros grupos vieram nos anos seguintes em diferentes vapores, reforçando a ocupação e ampliando as fronteiras agrícolas da colônia. As famílias receberam lotes de terra medindo cerca de 25 hectares, demarcados entre os vales e encostas próximas ao rio que deu nome à localidade.
As famílias pioneiras
A comunidade foi formada inicialmente por 52 famílias, totalizando 122 imigrantes, entre homens, mulheres e crianças. Entre elas destacam-se sobrenomes que ainda hoje se encontram na região:
ARALDI, BALZANELLI, BARDINI, BERLANDA, BERTOTTI, BROLESE, BRULERA, BRUNEL, BURATO, CARRARA, CARTELLI, CIPRIANI, COMIN, CORADINI, DE BIASI, DE FAVERI, DE PIERI, FABIAN, FAVARIN, FERRI, FORNASA, FRANCESCONI, FURGHESTI, GRASSI, GUAREZZI, LODI, LONGO, MAGAGNIN, MANARIN, MANGEROT, MARGOTTO, MINATTO, MIROSI, MODOLON, MUSSOI, NANDI, PAGNOSSIN, PASINI, PELLIZER, PIAN, PIAZZA, POPINI, QUIN, SAFANELLA, SIMONI, TANQUELA, TOTTI, TURAZZI, VIAL, VIGARANI e ZANELLA.
Entre os pioneiros, algumas famílias se destacaram pela liderança comunitária e religiosa, pela habilidade na agricultura ou pela formação de extensas redes familiares que se espalharam por Pedras Grandes e todo o Sul catarinense.
A família Minatto, por exemplo, é lembrada pela força de trabalho e pela contribuição à construção da capela local; os Bardini e Carrara pela hospitalidade e apoio aos recém-chegados; e os Margotto, De Pieri e Francesconi pela dedicação à viticultura e à produção artesanal de vinho e alimentos.
A vida na nova terra
A vida em Rio Cintra foi marcada por muito esforço. Os colonos tiveram de abrir picadas na mata, construir suas casas com madeira retirada do entorno e iniciar o cultivo de milho, trigo, videiras, feijão e batata. O isolamento era grande, e o transporte de produtos até os centros vizinhos — como Azambuja e Urussanga — exigia longas caminhadas ou o uso de carroças em estradas precárias.
A fé foi um elemento central. Logo nos primeiros anos foi erguida uma capela, que se tornou o centro da vida social e espiritual da comunidade. Em torno dela se reuniam as famílias para as missas, festas religiosas, casamentos e batizados, mantendo vivas as tradições trazidas da Itália.
Legado e identidade
Com o passar das décadas, Rio Cintra consolidou-se como uma das comunidades mais tradicionais de Pedras Grandes, mantendo até hoje traços da cultura italiana em seus costumes, culinária, sotaque e sobrenomes.
Os descendentes daqueles 122 imigrantes continuam a cultivar o amor pela terra e pela família — valores transmitidos pelos antepassados que, com coragem e esperança, cruzaram o oceano em busca de um futuro melhor.
Mais do que uma história local, a saga de Rio Cintra é parte viva da epopeia da imigração italiana em Santa Catarina, que completará 150 anos em 2027, e que moldou a paisagem humana, cultural e econômica de todo o sul catarinense.




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